1º Encontro Evangélico de Mulheres Indígenas

Leia a entrevista com Rute Poquiviqui, indígena da etnia Terena, líder desse encontro

Não há muitos registros sobre o trabalho de mulheres indígenas, em uma retrospectiva histórica. Você se inspira em alguma mulher cristã indígena?

De fato, o registro de trabalho e atividades entre os povos indígenas é bem escasso e o que tem é visto pela óptica de um não indígena. Está havendo um número grande de indígenas nas universidades e isso tem contribuído para que os próprios indígenas protagonizem suas histórias e conquistas. No campo evangélico, por se dizer assim, não é diferente. Aliás, é mais deficiente ainda, também por uma questão histórica. A minha iniciação cristã começou em casa, pelo esforço da minha mãe em conduzir seus sete filhos no Caminho. Ela sempre nos falou dos ensinamentos bíblicos e o quanto devemos amar a Deus, sendo então o primeiro exemplo na minha vida de mulher cristã. Quando vamos crescendo, nosso mundo também vai ampliando e conhecendo outras pessoas e nesse caminhar elas vão acrescentando suas experiências à nossa vida. Outra que posso falar é a missionária Queila França, da Uniedas. Ela foi para o campo e está há mais de 20 anos entre os índios da etnia Parecis/MT. Ela desbravou a mata para levar o Evangelho. A cada relato seu, das inúmeras dificuldades que enfrenta por lá, permanece fiel ao propósito de estar ao dispor do Senhor. Louvo a Deus pela vida dela e das outras missionárias que estão no campo. Poderia relatar outra mulher cristã não indígena? Sim, porém, voltaria ao início da conversa, onde não há relatos sobre a atuação da mulher cristã indígena, pelo fato de nós não falarmos de nós e sim dos outros. Mas quero aqui contemplar em lembrança uma mulher indígena, Enir Bezerra da Silva (in memoriam) que foi líder e desbravou a mata de pedra, para ajudar os parentes indígenas a conseguirem uma moradia digna, quando vieram para a cidade em busca de oportunidades. Ela fundou a primeira aldeia em contexto urbano do Brasil.

Quais os maiores desafios das mulheres indígenas no Brasil?

Os maiores desafios da mulher indígena não estão longe dos das não indígenas, porém, naquela especificidade, pode-se dizer que a questão da discriminação e igualdade de direitos, creio que são os que mais pesam. A discriminação de uma forma geral, os indígenas já sofrem muito. Em sendo mulher, isso fica mais evidente. Penso que a discriminação e a questão da busca pela igualdade andam lado a lado. Recentemente, houve uma conquista pelo movimento indígena em colocar duas mulheres indígenas para atuarem na Casa da Mulher Brasileira, a primeira a ser inaugurada no Brasil pelo Governo anterior. Essas duas, uma falante do idioma Terena e a outra do idioma Guarani, não ficaram muito tempo, com alegação de que não havia demanda, ou seja, colocaram outras no lugar dessas e se chegasse alguma indígena necessitando de atendimento, teria que passar novamente por outro constrangimento (casos de violência contra a mulher). Diziam que as mulheres indígenas não sofrem agressões, absurdo! A busca pela igualdade de lutar pelos seus direitos, assim como os homens, também é uma batalha. Como a ex-cacique Enir Bezerra (in memoriam) enfrentou quando da sua eleição. Diziam que não poderia ser cacique porque na cultura indígena não existe cacique mulher. Ela batalhou pela efetivação, pois foi eleita pela comunidade que fundou e conquistou seu espaço. Como cacique enfrentou muitos desafios para trazer melhorias para a comunidade, pois os “homens públicos” só reconheciam cacique homem. A mulher indígena é tão capaz, eficiente e articuladora quanto o homem, seja indígena ou não, a falta de oportuniza-las e dar a elas voz, faz com que ainda permaneçam na invisibilidade, infelizmente.

Quais trabalhos você tem desenvolvido nesse contexto, para ver mudanças reais?

Atuante dos movimentos indígenas e por oito anos consecutivos no secretariado do Conselho-CMDDI, participei de várias demandas das comunidades, que continham a questão da mulher indígena. Pelo fato do Conselho Municipal dos Direitos e Defesa dos Povos Indígenas abrir a oportunidade para que uma mulher chegasse à presidência, e eu própria secretariar, já é uma conquista de perto que posso falar. Na luta dos movimentos aliada ao Conselho, em uma das mais importantes articulações, conquistamos uma sub coordenadoria municipal, que teve uma mulher dirigindo e outra conquista foi a subsecretária estadual, com uma sub secretária. As mulheres indígenas, apesar das lutas que ainda são presentes, podem seguir confiantes de que vale a pena lutar pelos seus direitos.

O que muda na mente de uma mulher indígena que se converte a Cristo?

Creio que a transformação que Cristo faz no ser humano está no sentido da auto avaliação. O que eu fazia antes, tenho que pensar que, como uma nova criatura em Cristo, devo ou não fazer. Já ouvi relatos de mulheres de certa comunidade que, antes da conversão, não tinham vida, pois só viviam para beber chicha (bebida fermentada feita pelos índios). E que depois que entregaram sua vida a Jesus, passaram a viver. Tem um relato de uma mulher cristã indígena que agora cuida da casa, vai para a roça, participa nas atividades da igreja e mais ainda, se sente livre do vício que não deixava ela ter vida. A salvação em Jesus anunciada aos povos é supra cultural, mas aquilo que está como cultura que tira a vida abundante prometida por Jesus, terá a libertação. Então, são vários contextos indígenas, cada um tem sua especificidade, mas no geral, é Cristo que dá a vida abundante, e cada uma tem a sua experiência.

Quando você decidiu que era tempo de mobilizar esforços e colocar esse tema na pauta da Igreja?

A oportunidade que a Missão indígena Uniedas me deu em 2013, como vice-secretária, abriu ainda mais espaços para eu percorrer as mais de trinta igrejas e os campos missionários. Em 2015, quando iniciei meu curso de Teologia, vi muita literatura sobre a mulher cristã, mas não especificamente tratando do contexto indígena e cada etnia tem sua especificidade e forma de expressar sua fé. Aliando a oportunidade e a busca pelo conhecimento, nas muitas viagens às igrejas e campos missionários, houve esse pensamento de unirmos nossas experiências e vivências para compartilhar umas com as outras e assim nos fortalecermos na caminhada.

Aonde espera chegar e que tipo de mudança deseja ver?

O caminho é longo, estamos dando o primeiro passo, mas o desejo do meu coração é ver uma mobilização das mulheres cristãs indígenas fazendo a diferença em suas comunidades e por onde forem, se sentirem firmes, confiantes e atuantes, tanto na igreja como na vida secular. Protagonizar a própria história, do que Cristo faz e representa na vida delas, e assim trazer mais mulheres para o Reino.

Conte um pouco sobre a iniciativa de promover esse evento.

O primeiro Congresso Evangélico de Mulheres Cristãs Indígenas começou a ser articulado na igreja Uniedas da aldeia São Luiz – Reserva Rio Branco/RO, em julho de 2016. Enquanto conversava com algumas mulheres lá, perguntando se já haviam feito algum evento assim por lá, de reunirem mulheres para estudar a Bíblia juntas, orarem, louvarem a Deus, etc, elas relataram que não tinham participado de nada assim e que se pudesse fazer um encontro lá, elas ficariam muito felizes. Conversamos muito naquela tarde e após algumas diretrizes, oramos, pois as dificuldades eram muitas, entre elas a questão da distância (são 1758 km de Campo Grande/MS a Alta Floresta D’Oeste, mais 70 km até a reserva, quase 24 horas de estrada, somente ida), parte financeira e dificuldade das irmãs disporem de tempo longe da família e seus afazeres. Mas de lá para cá, colocamos diante de Deus e pela graça dEle iremos realizar esse encontro nos dias 11, 12 e 13 de agosto de 2017. Diante disso, nasceu também o REMIN-Rede de Mulheres Evangélicas Indígenas, apresentado por ocasião da Conferência Anual das igrejas da Missão indígena Uniedas, em abril deste ano, na igreja local da aldeia Moreira, MS. O lançamento oficial está previsto para o dia 07 de outubro de 2017.

Quem pode participar?

Não restringimos a participação de outras pessoas, como os homens (risos), mas nossa programação será voltada especificamente para as mulheres.

Qual é sua visão da mulher indígena em 5 anos?

Creio que é de muitas conquistas. Especificamente das Terenas, com quem convivo mais, vejo que muitas trabalham, a maioria na área de educação e saúde. Elas participam de seminários e congressos sobre as políticas públicas voltadas às mulheres indígenas, estão mais habilitadas e ainda, são bem atuantes nas igrejas locais. Continuam e dão continuidade à cultura e aos trabalhos artesanais indígenas. Mulheres indígenas de diferentes etnias também têm vivido suas conquistas. A mulher cristã indígena tem crescido muito e está saindo da invisibilidade, ela conta a sua própria história.

Existe machismo na cultura Terena? Se existe, de que forma ele se manifesta?

Sim e não, depende da óptica. Sim, quando o de fora olha e com seu conhecimento, julga o caso concreto. Ex: na hora do almoço o homem fica sentado e a mulher faz o prato e leva para ele comer, ele pede um copo com água e ela leva. Os de fora iriam dizer que é machismo, o homem ficar sentado e a mulher ficar servindo. Não, se olharmos dentro de um contexto, onde a mulher Terena está na sua casa, fazendo seu almoço no fogão a lenha e o homem chega da roça para almoçar, senta cansado no sofá e a mulher lhe atende com um prato de comida e um copo de água. É muito relativo, mas pode haver caso de machismo, talvez ainda de forma velada, mas as mulheres indígenas (as mais novas) estão buscando conhecimento e aprendendo a identificar casos omissos.

Rute Poquiviqui é indígena da etnia Terena, casada, membro da Igreja Uniedas Jardim Imá, em Campo Grande, MS. Ela é vice-secretária da Missão Indígena Uniedas, secretária executiva do Conselho Municipal de Defesa e Direitos Indígenas, graduada em Ciências Jurídicas/Direito, pós graduada em Antropologia e História dos Povos Indígenas, graduanda m Teologia.

Você tem um chamado missionário?

Você está interessado em ajudar a transformar o mundo agora e para a eternidade? A Missão Emanuel pode ajudar. Temos várias oportunidades para cristãos comprometidos com o Senhor Jesus e Seu Reino, que sentem-se chamados a servir a Cristo e à Sua Igreja em países em desenvolvimento na África, Ásia e Caribe.

A Missão Emanuel tem um programa de treinamento para que você possa desenvolver atitudes espirituais e aprender mais, a fim de trabalhar com igrejas num ministério integral e transcultural.

Para receber mais informações, entre em contato com a Missão Emanuel do Brasil.